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domingo, 16 de outubro de 2011

RODOANEL ISOLA MORADORES DE MAUÁ



Moradores utilizam caminho marginal ao córrego para acessar o Centro. 
Foto: Amanda Perobelli

Cenário da Vila Santa Cecília mistura ruas esburacadas, mato alto e pneus abandonados em canteiro de obras.

O cenário na Vila Santa Cecília, em Mauá, é de abandono. Ruas esburacadas, empoeiradas e interrompidas para passagem de veículos e pedestres. Casas vazias, calçadas e pontos de ônibus destruídos. O mato alto, os pneus largados nos canteiros de obra e a falta de iluminação finalizam o quadro deixado pela Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.) no bairro ao realizar as obras de interligação da cidade com o trecho Sul do Rodoanel e das avenidas Papa João 23 e Jacu-Pêssego.

Isolada após as intervenções do Estado, a população passou a usar a encosta do córrego do bairro como via de acesso ao Centro da cidade. O problema é que o espaço não é uma via de verdade e oferece perigos e insegurança aos moradores. “Não temos iluminação, o mato está sempre alto e os pedestres dividem o espaço com os veículos, já que não temos calçada”, desabafou a auxiliar administrativa Amanda Colleto, 33 anos.

Desde que as obras do trecho Sul do Rodoanel e da Jacu-Pêssego foram iniciadas na Vila Santa Cecília, em 2008, os riscos de assaltos, estupros e violência aumentaram. O problema é tão grave que fez a direção da Escola Estadual Professora Sada Umeizawa desistir das aulas noturnas pela falta de segurança dos funcionários e alunos. “A escuridão é grande e o mato alto ajuda os criminosos a se esconderem”, revelou a dona de casa Edjane Campos, 39 anos.

A peregrinação até o Centro da cidade não para por aí. Após enfrentar o perigo da violência ou o risco de serem atropelados na encosta do córrego, os moradores encaram a difícil missão de atravessar as avenidas Ayrton Senna da Silva e Santa Catarina sem o auxílio de faixas ou semáforos de pedestres. “Crianças, idosos e adultos correm entre os carros para atravessar as vias. É um perigo”, alertou Edjane.

Aqueles que preferem não se arriscar entre os veículos, têm a opção de aguardar o transporte coletivo. Porém, sem calçada ou cobertura, o ponto de ônibus do bairro fica em uma curva na junção das avenidas Ayrton Senna da Silva e Santa Catarina, no meio das vias, e não oferece segurança aos usuários. “Uma pessoa já foi atropelada aqui. A situação é preocupante”, lamentou Amanda.

Intervenções da Dersa criaram bairro-fantasma

Os moradores garantem que tais problemas não existiam antes das intervenções da Dersa no bairro. “Agora parecemos um bairro-fantasma, onde tudo foi destruído e nada funciona”, avaliou Edjane. Para os munícipes, o problema está no fato de que a maior parte dos moradores foi retirada do bairro. No início, a Dersa falava em remoção total, porém, com um novo projeto, o trajeto foi modificado para longe da Vila Santa Cecília, o que impossibilitou a desapropriação total do bairro. “Fomos esquecidos aqui”, afirmou a dona de casa.

Em nota, a Dersa afirmou que investirá R$ 4,47 milhões na recuperação das ruas Santa Rita, Santa Rosa, Santa Ana, Santa Anastácia e Luiz Varin, além das avenidas Santa Lúcia, Guido Bozzatto, Santa Virginia e Santa Terezinha. A licitação para os trabalhos estão em andamento e a previsão é que na primeira quinzena de novembro sejam entregues as propostas das empresas interessadas.

A empresa ainda esclareceu que o projeto de implantação de obras prevê que o bairro ficará com as saídas já existentes, ou seja, usando a encosta do córrego como rua. Porém, a Dersa esclareceu que pintará faixas de pedestres para garantir a segurança dos moradores. Já sobre o ponto de ônibus, a empresa não tem previsão.

Mauá explicou que a Dersa removeu a iluminação do bairro e, portanto, é responsável pela reposição. A administração já fez a solicitação. Sobre as vias, a Prefeitura confirmou que a Dersa fará a pavimentação, o que inclui a avenida Santa Catarina, que ganhará  nova calçada e ponto de ônibus. A informação não foi confirmada pela Dersa. Em relação ao mato alto, a Prefeitura informou que o bairro está na programação municipal de capinação para outubro.

Poeira das obras causa doenças em crianças

De acordo com os moradores, rinites, bronquites e tosses alérgicas são comuns na Vila Santa Cecília, atacando principalmente as crianças, devido à poeira que cobre o bairro com o vai e vem de caminhões da Dersa que trabalham na interligação da Papa João 23 e Jacu-Pêssego.

Com bronquite alérgica, o filho de cinco anos de Edjane é uma das vítimas. “Uma vez ele me disse que a tosse dele não gostava da nossa casa, porque quando ele estava na escola, não tossia”, comentou.
Além da poluição, os moradores estão preocupados com os mais de 50 pneus jogados em tubos de drenagens usados na implantação de bueiros pela Dersa, em baixo do viaduto da Jacu-Pêssego. “Esses pneus servirão para a proliferação de dengue”, disse Edjane.

Em nota, a Prefeitura de Mauá explicou que realizará uma ação para o recolhimento de pneus descartados irregularmente na cidade, inclusive na Vila Santa Cecília. 

Problemas marcam obra no trecho Sul

Assim como a Vila Santa Cecília, em Mauá, o problema do isolamento causado pelas obras do trecho Sul do Rodoanel é compartilhado pelo vizinho Jardim Oratório e pelo Parque Imigrantes, em São Bernardo.  Atrasos nas obras de compensações ambientais complementam a lista de problemas das cidades do ABCD por onde passa a via. Após um ano de inauguração, ruas esburacadas aguardam pavimentação na Região.

A obra, realizada a toque de caixa, não se preocupou em isolar bairros inteiros ou cometer crimes ambientais. As construções foram aceleradas, os atrasos foram contornados e o trecho Sul do Rodoanel foi entregue antes de José Serra (PSDB) sair do governo do Estado para ser candidato à Presidência da República.

No caso do Parque Imigrantes, em São Bernardo, as intervenções da Dersa bloquearam o acesso ao km 26 da Imigrantes pela estrada Galvão Bueno, distanciando o bairro dos vizinhos Los Angeles, Royal Parque, Nova Canaã e Vila Uiriçaba. O local sem infraestrutura básica ficou mais longe dos centros comerciais. O caminho que antes era de dois quilômetros até o Jardim Represa, agora é de 12.
Além do desmatamento, a região sofreu com assoreamento da Billings, minas e olhos d’água. Das 633.038 mudas previstas na compensação ambiental para São Bernardo pelo convênio assinado entre Dersa e Prefeitura, apenas 44 mil estão sendo plantadas na cidade.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Trecho sul do Rodoanel passa a cobrar pedágio no mês que vem


"'E  isso que vcs merecem, seus tontos!
"
DO "AGORA" - O consórcio SPMar deve iniciar a cobrança de pedágio no trecho sul do Rodoanel até o próximo mês.

A tarifa proposta pelo consórcio -formado pelas empresa Contem e Cibe, do grupo Bertin- foi de R$ 2,19, em julho de 2009. Ela será reajustada pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) para cerca de R$ 2,40.

Inaugurado em abril de 2010, o trecho sul do Rodoanel é alvo de reclamações dos motoristas devido às falhas estruturais. Sem iluminação, postos da polícia rodoviária estadual ou telefones de emergência, a estrada é perigosa, tanto pelas suas curvas sinuosas quanto pelas ações violentas de criminosos na região.

Ontem, começaram as obras do trecho leste, que deve ficar pronto em março de 2014.

Da Folha de S.Paulo (para assinantes)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O mito do planejamento tucano nas obras viárias da região metropolitana de São Paulo

O governo do Estado de São Paulo, nas mãos do PSDB há 16 anos, sempre se gabou de excelência administrativa, com seus “choques de gestão” e com a qualidade de seu planejamento, marca registrada de uma administração supostamente austera na realização e cumpridora de prazos. Não é o que os munícipes têm visto. A seguir, estão expostos alguns casos nos quais a falta de planejamento, alem de causar atraso no prazo de entrega das obras, acarreta um sobrepreço, muito superior aos gastos previstos inicialmente na licitação. A má gestão do dinheiro público e o seu consequente desperdício são a real marca dos governos do PSDB em São Paulo

Na Jacu-Pêssego, o aumento do valor da obra chega a 175%

A Jacú-Pêssego é uma avenida da capital paulista construída em 1996. Com a inauguração, em 2008, do acesso Rodovia Airton Sena, foi anunciado o seu prolongamento, entre o trevo da Avenida Ragueb Chohfi, na zona leste da capital, até a Avenida Papa João 23, em Mauá, possibilitando aos motoristas chegar ao trecho sul do Rodoanel. Essa obra, que fazia parte do calendário eleitoral de inaugurações do ex-governador e candidato a presidente derrotado José Serra, foi entregue incompleta e com atraso em outubro de 2010. O gasto inicial previsto na licitação, de R$ 835 milhões, dobrou até essa data, para atingir R$ 1,9 bilhão. Já consumiu dos cofres públicos R$ 2,3 bilhões – 175% de sobrepreço - e a ultima previsão do governo é que estará concluída somente em setembro.
Até lá, os moradores dos bairros da zona leste continuarão a sofrer com as enchentes, devido a falta de obras de infraestrutura para a solução do problema, e os motoristas, a conviver com os assaltos que ocorrem com frequência na via, por falta de iluminação.

Rua Confederação dos Tamoios, na Zona Leste,  ficou esburacada após as obras

Av.Jacú-Pêssego iluminada emergencialmente por geradores a diesel

Sobrepreço da duplicação da Marginal Tietê equivale a sete hospitais

Uma das jóias do calendário eleitoral de inaugurações do ex-governador e candidato a presidente derrotado José Serra era a duplicação da avenida marginal Tietê. Anunciada com pompa, a propaganda da obra, orçada inicialmente em R$ 1 bilhão, prometia reduzir em 35% o tempo gasto no seu percurso. Mas, assim como toda obra tucana, essa também peca pela falta de planejamento e qualidade de gestão. Com o seu custo elevado em 75% acima do previsto inicialmente, e 10 meses de atraso, foi entregue nesta quarta-feira, 27/07,a ponte estaiada sobre o rio, que integra o complexo viário, sem a conclusão e sem a previsão de construção da alça de acesso ao bairro do Bom Retiro. A pressa explica-se pelo calendário eleitoral – as eleições municipais de 2012.
Com o sobrepreço de R$ 750 milhões, seria possível construir 300 escolas, ou 7 hospitais de 200 leitos cada.

 Ponte estaiada inaugurada sem a prometida alça de aceso para o Bom Retiro

Na parte superior, a esquerda, o acesso ao Bom Retiro sem previsão de entrega 

Rodoanel trecho Sul, paradigma do mau planejamento tucano.

O trecho sul do Rodoanel, outra obra eleitoral do ex-governador e candidato a presidente derrotado José Serra, é o campeão da falta de planejamento/incompetência. Realizada a toque de caixa, a via cruza dois dos reservatórios de água estratégicos da região metropolitana, as represas Billings e Guarapiranga. São inúmeras as denúncias de não cumprimento das exigências previstas no EIA-Rima, para a obtenção da licença ambiental.

O metodo de corte-aterro causa danos irreparáveis ao meio ambiente

Pressa e falta de experiência colocam vidas em risco no Rodoanel trecho Sul

A queda de três vigas de uma viaduto em construção, no dia 13 de novembro de 2009 ferindo 3 pessoas, foi um sinal de que a pressa na construção do trecho sul do Rodoanel iria provocar muitos problemas no futuro. De fato, no dia 26 de julho, a imprensa noticiou que um erro no projeto, ao custo de R$ 17 milhões, inviabiliza o uso da principal alça de acesso do Rodoanel à rodovia Regis Bittencourt, em Embu das Artes. Inaugurada em junho do ano passado, a via não é liberada pela concessionária Autopista Regis Bittencourt e pela Agência Nacional de Transportes Terrestres sob a justificativa de que é insegura, em razão da existência de um afunilamento da pista no seu lance final. Esse grosseiro erro de engenharia exige dos motoristas que reduzam forçosamente a velocidade, mais do que a cautela ou as leis do trânsito o exigiriam.

Inexperiência, pressa e economia de matérias segundo os especialistas

R$ 17 milhões na mais cara obra eleitoral do estado

Os Filhos do Rodoanel

O descaso dos tucanos paulistas para com as pessoas carentes não é novidade. Mas no caso do trecho sul do Rodoanel é gritante. Desatentos ao fato de que uma obra desse porte atrairia milhares de operários - 22 mil no auge da construção – os responsáveis pelo planejamento e gerenciamento da obra não previram o problema social que disso adviria. O resultado é que nas regiões por onde a obra passou ficou um rastro de bares e pequeno comércio falidos, tráfico de drogas, prostituição infantil e mães solteiras.
De acordo com estatísticas das autoridades dos municípios por onde passa o Rodoanel, houve um aumento na taxa de natalidade nas proximidades dos canteiros da obra. Isso foi confirmado em reportagem feita pelo jornal tucano Folha de São Paulo, na edição de 24/07/2011. Entrevistadas, mulheres residentes no local informam que tiveram filhos de operários da obra.

Mãe de filho do Rodoanel chora sem condições de criar o rebento

A tecnologia tucana em atraso e sobrepreço também na prefeitura de São Paulo

Na Prefeitura de São Paulo o planejamento tucano também está presente, desde a breve passagem por lá do ex-governador e candidato a presidente derrotado José Serra. O viaduto Padre Adelino, na zona leste da capital, é um dos exemplos ilustrativos de sua marca registrada. Iniciada em 2007 com dois anos de atraso, a obra deverá ser concluída somente em agosto, dez meses depois do prazo inicialmente previsto. E o sobrepreço? A justificativa oficial das desapropriações não previstas originalmente eleva o seu custo em R$3,2 milhões.

 Obras que nunca acabam no Viaduto Adelino - 1

 Obras que nunca acabam no Viaduto Adelino - 2


Obras que nunca acabam no Viaduto Adelino - 3

Com informações do Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e dos blogs Movimento Rodoanel Não e A verdade do Rodoanel

terça-feira, 26 de julho de 2011

Obra de R$ 17 milhões no Rodoanel tem falha e não pode ser inaugurada



Uma falha no projeto impede a abertura da principal ligação do Trecho Sul do Rodoanel para a Rodovia Régis Bittencourt, em Embu das Artes. A alça de acesso está totalmente pronta há mais de um ano, com as faixas pintadas no asfalto e as placas de limite de velocidade colocadas. No entanto, a obra de R$ 17 milhões não pode ser inaugurada, pois, do jeito que está, há risco de acidentes para os veículos que chegam na Régis.

A alça de acesso ficou pronta em junho do ano passado – dois meses após a inauguração do Trecho Sul. Há outra ligação com a Régis Bittencourt, aberta com a inauguração do Trecho Oeste (2002), mas é longa, cheia de curvas e feita para baixa velocidade. A nova alça é uma ligação direta com a pista expressa da rodovia.

Mas a nova ligação não obtém a liberação para o tráfego da concessionária que administra a Régis Bittencourt (Autopista Régis Bittencourt) nem da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). O argumento é que ela é insegura, pois há um afunilamento no final da alça, bem no encontro com a Régis Bittencourt. Essa situação exige que os motoristas reduzam a velocidade para entre 40 km/h e 60 km/h.

O problema é que esses veículos vão dividir espaço com os que trafegam na Régis Bittencourt, a uma velocidade de até 90 km/h. “Sob o ponto de vista da segurança, essa geometria apertada no final é totalmente inadequada e pode haver conflito e acidentes”, disse o engenheiro de tráfego Horácio Augusto Figueira. Ele acrescenta que é necessário um trecho segregado, de 500 metros, para os veículos ganharem velocidade.

Essa é justamente uma das exigência da concessionária responsável pela rodovia. A previsão é que a abertura leve pelo menos mais dois meses. Um novo projeto da empresa de Desenvolvimento Rodoviário SA (Dersa) – ligada ao governo estadual e responsável pelas obras do Rodoanel – foi aprovado pela ANTT e pela Autopista. Para viabilizar mais rapidamente, não será preciso de imediato a construção de uma outra faixa, mas os caminhões e ônibus não poderão usar a nova ligação.

A Dersa afirma que não houve erro no projeto, que foi apreciado e aprovado pelas autoridades federais. A empresa atribui a demora à concessionária, que teria pedido para adiar a abertura, pois faria melhorias no asfalto. Depois, a Autopista teria modificado as exigências para a abertura.

Enquanto a nova alça não é aberta, os motoristas usam o acesso antigo. É uma ligação cheia de curvas, feita em baixa velocidade, que provoca congestionamentos, além de riscos de acidentes.

Os moradores e pessoas que trabalham no Bairro Vista Alegre reclamam que chegam a levar até uma hora para percorrer o trecho entre o fim do acesso do Rodoanel até a entrada da cidade.

Do Contexto Livre

domingo, 24 de julho de 2011

Folha descobre a falta de "planejamento" tucano, PSDB é o verdadeiro pai dos "filhos do Rodoanel"

Dezenas engravidaram e foram abandonadas com filhos por trabalhadores 
São Bernardo do Campo teve aumento de 31% de gestantes, em 2008; prefeitura diz que não há relação nos casos

Edicleide, 39, conheceu "Ceará", 48, em 2009, num forró. Ele, operário do trecho sul do Rodoanel. Ela, moradora do Jardim Represa, bairro de São Bernardo do Campo, vizinho à obra inaugurada em março de 2010.

Namoraram, juntaram, ela engravidou, ele ficou com outra (que também engravidou), brigaram, ele sumiu.

O filho foi registrado, mas nunca recebeu um centavo de pensão. O paradeiro de "Ceará" é desconhecido.

Hoje, ela vive em uma casa de dois cômodos com o auxílio do Bolsa Família -pago pelo governo federal- e a pensão de outras duas filhas.

A história de Edicleide Maria dos Santos é apenas um dos relatos de gravidez e abandono ouvidos pela Folha em seis bairros carentes da cidade, vizinhos às obras iniciadas em 2007.

Líderes comunitários, moradores, funcionários da prefeitura e conselheiros tutelares afirmam que "dezenas de mulheres" -muitas delas, adolescentes- engravidaram durante os três anos em que cerca de 4.000 operários permaneceram no local (em todo o trecho sul, foram 11 mil empregados diretos).

"Foram muitas crianças órfãs, porque o pai sumiu e retornou para seus familiares", diz Evaldo Carvalho, 43, líder comunitário do Parque Los Angeles.



Dizem que este é o verdadeiro pai dos "filhos do Rodoanel"

"PAI DE ONZE"

O município não tem o levantamento dos casos. Porém, em 2008, com os alojamentos já apinhados de operários, houve aumento de 31% no total de grávidas na cidade -e de 61% de gestantes com menos de 20 anos.

Em quatro das cinco unidades de saúde que atendem bairros do entorno da obra, houve aumentos de 40% a 82% -e de 73% a 91% no caso de gestantes adolescentes.

A prefeitura ressalta que, como houve aumento também em regiões distantes da obra, "não é possível concluir categoricamente que houve aumento significativo dessas ocorrências por causa dos relacionamentos fortuitos de operários do Rodoanel com as mulheres da região".

Nos cinco dias em que percorreu a região, a Folha conversou com seis mães, além de parentes e vizinhos de outras nove -total de 15 casos.

Um conselheiro tutelar que pede para não ser identificado confirma que foram "dezenas" -fora os casos que não chegaram ao conselho e os das maiores de idade.

No setor da conselheira Érica Santana, foram cinco adolescentes, entre 15 e 17 anos -além de denúncias de que um operário engravidou 11 meninas no bairro Areião.

Projetos sociais focaram os removidos
Segundo a Dersa, responsável pelas obras, pouco foi feito em relação ao impacto causado às famílias que ficaram na região
Gerente da estatal diz que os projetos serão ampliados durante a construção do trecho norte do Rodoanel

A Dersa, empresa do governo estadual responsável pelas obras do Rodoanel, admite que os projetos sociais do trecho sul foram voltados para as famílias removidas e que pouco foi feito em relação aos impactos causados às que ficaram na região.

Por isso, diz o gerente da Divisão de Gestão Social, Luciano Dias, a Dersa pretende ampliar os projetos sociais no trecho norte, cuja construção deve começar em dezembro. Ele questiona, porém, a relação direta entre a obra e a alta de gestantes.

Dias afirma que a licitação do novo trecho deverá incluir o compromisso das empreiteiras em trabalhar junto com a Dersa nas ações sociais, inclusive dentro dos canteiros das obras.

Ele diz que o crescimento de grávidas não foi cogitado porque não ocorreu no trecho oeste. "Já que teve uma situação, vamos ver o que a gente pode fazer contra isso em relação ao trecho norte para que não se repita".

Dario Rais Lopes, secretário de Transportes na época da contratação da obra, na gestão anterior do governador Geraldo Alckmin (PSDB), diz que não tinha como se prever esse impacto. Ele defende que essa preocupação seja incorporada.

Mauro Arce, secretário de Transportes durante a execução da obra, na gestão José Serra (PSDB), foi procurado, mas não deu entrevista.

A Secretaria de Estado da Saúde enfatiza que a responsabilidade pela orientação de planejamento familiar é dos municípios e que enviou recursos no período.

CADASTROS

Rodolfo Strufaldi, coordenador do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da Prefeitura de São Bernardo, atribui a alta de gestantes à melhoria do cadastro da prefeitura, mas admite que a obra pode ter contribuído.

Segundo ele, a prefeitura reagiu rápido, com aumento de agentes comunitários (de 100 para 1.115 desde 2008), grupos de discussão nas UBSs e distribuição de preservativos aos operários.

Dos três consórcios que atuaram na região, o Queiroz Galvão/CR Almeida não respondeu aos questionamentos e se limitou a dizer que "se pautou pela execução responsável da obra e sempre cumpriu os requisitos estabelecidos em contrato".

Já o Odebrecht/Constran diz ter feito campanhas de prevenção, incluindo temas como DST, planejamento familiar e reuniões com a comunidade. O Andrade Gutierrez/Galvão Engenharia acrescentou ter abordado também prevenção contra drogas e alcoolismo.






Obras do Rodoanel deixam "órfãos" na região do ABC
Mães solteiras da região enfrentam o preconceito
Crianças são chamadas de "filhos do Rodoanel"; assunto atrai desconfiança e ironia
Na periferia de São Bernardo do Campo, o tema é tabu; moradores relatam aumento de brigas e prostituição


"Filha do Rodoanel!" -da janela da manicure de 35 anos dava para ouvir uma vizinha gritando, em referência à criança de um ano e nove meses que ela teve com um mestre de obras da via.

"Preconceito existe. Fazem piadinha falando que somos "mães do Rodoanel", mas tenho que focar na vida daqui pra frente", diz.

O tema é tabu no Parque Los Angeles, periferia de São Bernardo do Campo, onde mora a manicure. Falar sobre grávidas e Rodoanel ali geralmente resulta em silêncio, desconfiança, evasivas, negativas ou risadinhas.

"O povo não gosta de falar sobre a gente porque é coisa íntima, eles têm medo de que a gente ache ruim", diz a empregada doméstica Gizele Cerqueira, 30, que afirma não sofrer preconceito.

Ela sabe que o pai de sua filha, de dois anos e meio, é de Alagoas, mas ignora seu paradeiro. A criança não foi registrada e ele sumiu quando ela tinha 15 dias de vida.

A autônoma Alcione Amaro, 30, do Parque Los Angeles, teve mais sorte. Seu namorado da época, topógrafo mineiro, foi embora quando ela estava grávida de dois meses, deixando apenas um telefone. "Eu ligava todo dia, fiquei desesperada porque não conseguia contato."

Oito meses depois, já com o bebê nascido, ela conseguiu. Desde então, ele paga a pensão do menino.

Os moradores também falam da presença de meninas, de 12 a 17 anos, que iam para os alojamentos, de mochila e tudo, direto da aula.

FESTAS E PROSTITUIÇÃO

Outros impactos da obra apontados pela comunidade são: aumento de prostituição, consumo e tráfico de drogas, acidentes, brigas e isolamento de bairros. Jornais como o "São Bernardo Hoje" e o "Diário do Grande ABC" já haviam apontado os problemas, que, segundo eles,também atingiram Santo André e Mauá.

À epoca, moradores alugaram casas e chácaras aos trabalhadores. "Tinha muita menina de 15 anos no alojamento com 40 peões", conta a manicure Maria Cristiane Santos, 21, que engravidou de um operário do Piauí.

"Havia brigas e confusão, a gente nem dormia", lembra a dona de casa Cátia Cirilo, 36. Também havia mais bares abertos, que viviam cheios.

"Houve um momento de abundância econômica e, depois que esses homens voltaram para suas terras, deixaram as dívidas para trás", diz o vereador Paulo Dias (PT). O prefeito Luiz Marinho, do mesmo partido, não deu entrevista.

Marinei Marques, 51, foi uma das que não recebeu por algumas roupas que lavou.

Mas ela guarda cuidadosamente um bilhete deixado por um gaúcho que conheceu: "Mara, saiba que você foi minha gostosa."

Ela não engravidou, mas entrou em depressão quando o namorado foi embora e trocou o número do celular.

"Morro por causa daquele homem!", diz, entre gargalhadas.

Da Folha de São Paulo de 24/07/2010

terça-feira, 12 de julho de 2011

Faltou planejamento antes e durante as obras do trecho sul do Rodoanel


É fato que grandes construções como o Trecho Sul do Rodoanel Mário Covas provocam mudanças sociais em seu entorno. As mulheres da região que engravidaram de funcionários da obra, como o Diário evidenciou na edição de ontem, são um exemplo disso. Os transtornos poderiam ser minimizados se houvesse planejamento adequado e trabalho de prevenção antes e durante a execução do anel viário. Esta é a avaliação do sociólogo da Universidade Metodista Oswaldo de Oliveira Santos Júnior.

O especialista explicou que o aumento no número de grávidas em comunidades vizinhas à obra não foi exclusividade do Rodoanel. "Toda grande intervenção tem esse impacto social no País, porque atrai muitos homens de várias regiões em busca de trabalho. Muitas vezes eles criam vínculos frágeis com o lugar e, ao terminar a obra, voltam para onde moravam, deixando mulheres e crianças para trás", destacou.

Para Santos Júnior, intervenções desse porte deveriam prever o impacto social que causarão à população. "Antes e durante as obras deveria ser feito um trabalho de orientação com essas mulheres, de forma a enfatizar a questão sexual e o planejamento familiar", disse.

Como isso não foi feito na região, resta ao poder público cuidar dos filhos do Rodoanel. "Essas mulheres precisam ser acolhidas na rede pública de Saúde e Educação. Elas vêm de comunidades que enfrentavam problemas antes mesmo do início das obras", afirmou.

PODER PÚBLICO
Jardim Represa, Canaã e Batistini são alguns dos bairros de São Bernardo nos quais o Diário encontrou filhos de funcionários da obra. Segundo a diretora do departamento de atenção básica da cidade, Isabel Fuentes, duas equipes do Programa Saúde da Família começaram a atuar na região no início de 2010, quatro meses antes da entrega do complexo viário.

O objetivo do programa, conforme assumiu Isabel, é exatamente orientar e promover o diálogo entre os serviços de Saúde e os moradores. "Ações desse tipo poderiam ter diminuído o número de mulheres grávidas, embora levantamentos da Secretaria de Saúde não tenham identificado aumento significativo de gestações naquela região", afirmou.

As prefeituras de Mauá e Santo André, que também abrigaram canteiros de obras do Rodoanel, não fizeram nenhum levantamento específico para determinar se houve aumento no número de grávidas nas regiões vizinhas à construção. Elas se limitaram a informar que, se houve, mulheres e filhos serão atendidos na rede pública de Saúde e Educação das cidades, o que é direito de todo e qualquer cidadão.

Rodoanel separa comunidades vizinhas, afirma especialista

Ao invés de trazer benefícios e progresso às comunidades vizinhas, o Trecho Sul do Rodoanel Mário Covas acentuou as diferenças sociais entre elas e o restante das cidades do Grande ABC.

O sociólogo da Universidade Metodista Oswaldo de Oliveira Santos Júnior destacou que a forma como o anel viário foi construído separou comunidades e criou dificuldades de acesso a serviços básicos como Saúde e Educação. "As pessoas que vivem ao lado da rodovia não têm acesso a ela. A riqueza que trafega pelo Rodoanel não chega às mãos de quem mais precisa", afirmou.

Na opinião de Santos Júnior, o Rodoanel, ao invés de integrar, criou mais abismos sociais. "O planejamento se limitou à Secretaria de Transportes, sem pensar nas demais consequências", criticou.

Do Diário do Grande ABC

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Os filhos do Rodoanel

O Rodoanel não destrói apenas o meio-ambiente e o espaço urbano. Destrói também vidas. Nesta matéria do Diário do Grande ABC, a falta de planejamento, marca registrada dos governos do PSDB, deixou para trás centenas de crianças, filhos e filhas dos operários do trecho Sul que se foram ao fim da obra abandonando os rebentos do mesmo modo que a DERSA faz com as suas promessas de compensação.




Os filhos do Rodoanel


A construção do Trecho Sul deixou um rastro de destruição no meio ambiente e também crianças sem pais em vários bairros próximos dos canteiros de obras em São Bernardo. São os chamados filhos do Rodoanel, meninos e meninas que têm entre 1 e 2 anos e mães que foram abandonadas pelos operários durante a gravidez.

A equipe do Diário percorreu as estreitas e desertas ruas dos jardins Represa e Nova Canaã e parques Los Angeles e Imigrantes e encontrou diversas histórias de mães solteiras que foram deixadas para trás pelos funcionários da maior obra viária do País, inaugurada em março do ano passado.

Alguns dos homens fugiram sem deixar pistas, principalmente para os Estados do Nordeste, após o fim dos contratos de trabalho. Outros chegaram a viver por curto período com as parceiras; a maioria só assumiu a paternidade obrigada pela Justiça.

A manicure Flavia Bispo dos Santos, 41, teve rápido relacionamento com um mestre de obras de 50 anos e engravidou. A aceitação, por parte dele, foi difícil. O operário não aceitava, mas depois resolveu bancar os remédios, exames e complementos alimentares.

"Ele não esperava ser pai novamente. O pior são algumas moças que nem sabem o nome do pai de seus filhos", disse Flavia. A filha, Giovana Carolina, está com dois anos e quatro meses e às vezes fala com o pai, que mora em Vespasiano, Minas Gerais, pelo telefone.

A empregada doméstica Marcela Nunes, 24, foi uma dessas citadas por Flavia. Empolgada em um forró na região do Jardim Imigrantes, consumiu bebida alcoólica e teve relações sexuais com um pedreiro, do qual lembra apenas o apelido. Ela perdeu a criança no quarto mês de gestação. "Sei que o povo o chamava de Grilo e que foi embora para Sergipe. Fiz errado, mas na hora é difícil pensar direito. Foi eu dizer que estava grávida e esse homem sumiu. Nunca mais vi o rapaz", relembrou a jovem.

Moradores e agentes do Programa Saúde da Família costumam dizer, em tom de ironia, que a população na região dobrou devido ao alto número de nascimentos após o início das obras, em maio de 2007. "Isso aqui era um inferno com esses peões. Havia prostitutas, drogas e brigas entre eles todos os fins de semana. Hoje o que mais tem por aqui são mulheres criando sozinhas seus filhos", comentou a empregada doméstica Ana Lucia Santos, moradora do Jardim Represa e vizinha de uma jovem que está nesta condição.

Para o presidente da Associação de Moradores do Jardim Represa, Wilmar Ananias, a falta de planejamento familiar dessas mulheres refletiu na atuação da entidade comandada por ele. "Os homens fazem filhos e nós, da entidade, temos de dar o leite e ajudar as crianças. Se não fosse a gente para correr atrás, algumas estariam passando fome", contou.

Agentes da Unidade Básica de Saúde do Jardim Represa, o único posto de atendimento da região, garantem que o número de mães solteiras é grande, mas não existe um controle ou estatística sobre o aumento da população feitos pela Prefeitura de São Bernardo.

Mães buscaram direitos na Justiça

Mulheres que tiveram filhos com os funcionários que trabalharam na construção do Trecho Sul do Rodoanel em São Bernardo precisaram entrar na Justiça para conseguir o reconhecimento da paternidade. Algumas demoraram seis meses para encontrar e estabelecer contato com a família paterna. Tanto esforço foi necessário para garantir o nome do pai na certidão de nascimento de seus filhos e também conseguir pensão alimentícia. Muitas pararam de trabalhar para cuidar dos bebês, ou tiveram dificuldade para conseguir emprego após a maternidade, e contam com a ajuda de parentes e vizinhos para criar seus rebentos.

Alcione Feliciano Amaro passou os últimos cinco meses da gravidez sozinha e desesperada para encontrar o pai de seu primeiro filho. O ex-namorado desapareceu no quarto mês de gestação. A empregada doméstica de 28 anos não tinha o endereço do rapaz, ela contava apenas com nome completo e um número de telefone. O jovem de 19 anos trabalhou como topógrafo. A construção do Rodoanel foi o seu primeiro emprego fora da cidade em que nasceu, Lavras (MG).

Durante seis meses, Alcione discava o número marcado na pequena folha de papel inúmeras vezes ao dia. Mesmo grávida, a paraibana de Sumé trabalhou como faxineira até duas semanas antes do parto - mesmo tendo engordado cerca de 40 quilos nos nove meses de gestação.

Um mês após o nascimento de Isaac, uma prima da mãe solteira discou o mesmo número interurbano, como de costume. Por volta da meia-noite, alguém atendeu. Do outro lado da linha estava a avó da criança. "Quando ela soube, não acreditou. Mas ela decidiu perguntar ao filho, que acabou contando a verdade", recordou a empregada doméstica.

"A mãe dele me contou que ele voltou estranho para Minas, não contou para ninguém sobre o filho que estava para nascer", comentou Alcione. Depois do reconhecimento da paternidade, em menos de uma semana toda a família paterna foi ao Parque Los Angeles para conhecer o menino de olhos escuros. Para acertar o pagamento da pensão alimentícia, foi necessário acionar a Justiça.

Casamento

Já Maria Cristina dos Santos, 21, chegou a se casar com o operário que é pai do seu filho Eduardo, 1 ano e quatro meses. Eles alugaram uma pequena casa em Santo André, mas foi terminar a obra para o casamento também acabar. Atualmente Cristina mora no Parque Los Angeles. Sobre o pai da criança, não sabe nem o nome da cidade em que ele foi morar. "Sei que é no Piauí, lá longe, não tenho nem o endereço dele. Por enquanto, está pagando a pensão certinho."

Trecho Sul empregou 40 mil operários

Em cerca de três anos de construção dos 57 quilômetros de pistas e pontes e a destruição de 212 hectares da Mata Atlântica, mais de 40 mil funcionários trabalharam no Trecho Sul do Rodoanel. Grande parte morou em alojamentos e casas alugadas na região do Jardim Represa. O anel viário foi inaugurado em 31 de março. O custo da obra foi de cerca de R$ 5 bilhões. Bairros que hoje têm pouca circulação de pessoas eram completamente diferentes em 2007.

Moradores afirmaram que a obra trouxe benefícios, mas também muita confusão, prostituição e tráfico de drogas.

Os comércios e principalmente os bares viviam lotados de operários e os donos dos estabelecimentos ganharam bom dinheiro. Mas, com o fim dos trabalhos, também ficaram muitas contas penduradas. A equipe do Diário encontrou vários cadernos com contas de até R$ 1.100 em aberto. "A gente vendia fiado, eles sempre pagaram, mas nos últimos meses foi uma correria atrás desse povo. Vou guardar o caderno, quem sabe um dia eles não voltam e acertam as suas dívidas", avaliou Francisca Souza, proprietária de um bar no Parque Los Angeles.